TREJEITOS DO TEMPO
Renato De Cara
Quais seriam os vocabulários disponíveis para acessarmos, em discursos distintos, um ponto em comum na linguagem do afeto, entre às estruturas herdadas de cada um? Quem sabe as formas e as cores dos desenhos, o flerte com as iconografias coletivas e com a subjetividade do subconsciente, além de reforçar os significados simbólicos, apontem para a confluência das poéticas criando tensões e conexões? Posto isso, e tendo como fio condutor a linha, colocamos em diálogo três séries, uma minha e outras de outros artistas, que em traços, cores, perguntas e respostas, dialogam com os bordados que venho fazendo há quase dois anos, no encontro dos cuidados com minha mãe.
Bertha Eunice aos 95 anos, minha mãe, ainda se entusiasma com a surpresa do desenho. Seus crochês e suas perguntas, na fragilidade de sua memória, me estimularam a desenvolver uma tapeçaria despretensiosa e afetiva, embaralhando também as minhas dúvidas e o amor no tempo que ainda temos juntos. Uma benção! É a maneira que encontrei para seguir com a emoção, para além das palavras, sabendo que a beleza convence. As referências construtivas vêm de apropriações de um repertório variado, das leituras diversas, de romances, pesquisas ou outros escritos quaisquer, além dos estímulos virtuais e da cultura de ditados populares. Na técnica, a métrica da talagarça é corrompida pela falta de planejamento estrutural para encontrarmos a espontaneidade do fazer, sobrepondo linhas e cores, as rodinhas de crochês da mãe e seus lapsos cognitivos, além de objetos variados, como bijuterias, lembranças e outros mimos recolhidos nos encontros. Morro no fim, à moda da casa é agora apresentada como série e homenagem a quem tanto me ensinou. “Não é porque estou indo embora que não me importo” li de um obituário encontrado num livro de Vinciane Despret sobre a comunicação entre vivos e mortos.
Se a solidão é o contrário da humanidade, apresentamos juntamente a procura da herança adotada de Michel CENA7 e sua mãe de criação Raquel Ramalho. Ele, homem negro com um histórico artístico longevo, iniciado no grafite e no pixo de rua no ABC paulista, e ela, formada em psicologia, com seu crochê afetivo. Juntos, mãe e filho, vêm desenvolvendo a série O nome das coisas – ele com blocos de cores fortes e chapadas revisitando signos afro religiosos e as formas do construtivismo brasileiro e ela sobrepondo nessas pinturas suas delicadas tramas e penduricalhos crochetados. O título dessa exposição surgiu ao ouvirmos Michel contar de sua necessidade de se encontrar nos trejeitos familiares e combinar seu amor no fazer conjunto. Sorte nossa tanta delicadeza!
Ainda como convidada especial Leila de Sarquis, também com grande trajetória na cena, ocupa uma sala com algumas pinturas e uma mesa instalativa e, sobretudo, com a série Dar a ver de desenhos bordados onde a despretensão do rabisco em caneta é sobreposta com linhas finas e confusas, não domesticadas, descontruindo o pensamento linear. Seu universo apresenta uma releitura do amor e dos desencontros entre os turbilhões das emoções, em pequenos formatos. “Desde que estive em uma barriga de mãe, a alma vem me contando histórias e nada deverá ser rasurado com dúvidas de linguagens. A arte é transbordamento” diz Leila. Tendo como mentor o surrealista Sérgio Lima (1939-2024) a artista vagou pelas escritas automáticas, deixando o fluxo dos pensamentos sugerir as narrativas. Entre desenhos, escritos, pinturas, esculturas, instalações, assemblagens e bordados sua arte provoca um abismo, “no sentido do espanto e da estranheza de suas visitações”, segundo seu mentor.
Encontramos na Carmo Johnson Projects e no staff da galeria o ambiente ideal de acolhimento, dentro de seu programa interessado nas manualidades e numa produção para além dos ditames do mercado. Portanto, estamos aqui em diálogos que borram a finitude das coisas do mundo, à procura do (des)entendimento do tempo, até que não mais.
Renato De Cara, maio de 2026
“Temos muita tecelagem a fazer. Precisamos apreciar a incrível oportunidade criada pela possibilidade de combinar livremente os mais diferentes elementos dos costumes e das tradições de todo o planeta. A interpretação de culturas humanas, que começou há centenas de milhares de anos até culminar na atual explosão de experiências locais disponíveis para consumo global, é uma riqueza incalculável de possibilidades para a espécie. Há fios de todos os tipos que precisam ser entremeados em belos padrões originais, fios que no passado se destruíram uns aos outros, mas que hoje precisam ser combinados em diferentes cores, texturas e materiais para se cruzarem, se apoiarem e se ressaltarem mutuamente”
Sidarta Ribeiro, Sonho Manifesto, Companhia das Letras
AGRADECIMENTOS
Ana Lu Martins Jimenes; Claudia Apóstolo; Liana das Neves; Luanna Jimenes; Setsuko Katayama.
LENORA DE BARROS
Tecer, bordar, crochetar talvez sejam formas delicadas de conversar com o tempo.
Cada ponto depende do anterior, como os dias, como a memória.
Na exposição Trejeitos do Tempo artistas dialogam entre si através de obras que compartilham o gesto de tecer imagens – dois deles em parceria com suas mães:
Leila de Sarquis, Michel CENA7 e Raquel Ramalho, Bertha Eunice e Renato De Cara.
Crochês, bordados, pinturas, desenhos que incorporam fios, costuras e relevos compõem um universo de tessituras no qual o olhar do espectador é envolvido por cores, formas e diferentes densidades táteis. As obras criadas em campos híbridos onde o gesto manual deixa visível a duração do tempo.
Nas peças realizadas por Renato De Cara em parceria com sua mãe, o crochê opera como linguagem, dentro do território afetivo. Mapas de memória onde o tempo se organiza em camadas, bordas, centros e desvios. Há algo de amuleto nesses trabalhos — objetos que condensam gestos cotidianos, lembranças íntimas e signos silenciosos. Os elementos incorporados às peças correntes, broches, contas, botões, pequenos fragmentos que funcionam como vestígios de histórias vividas em comum. Coisas mínimas resgatadas das gavetas do esquecimento e reinseridas numa nova constelação de afeto.
O tempo do crochê não é o tempo acelerado da produtividade, mas um tempo tátil, lento, íntimo, quase respiratório, oposto radicalmente ao ritmo frenético que ora vivemos.
Porém, os trabalhos de De Cara e Bertha escapam da nostalgia. Não ilustram lembranças, mas sim reinventam modos de lembrar juntos. Fios de linhas funcionam quase como pensamentos. Há algo de linguagem nessas tramas — uma escrita silenciosa e táctil, quase autobiografias feitas para serem lidas pelos olhos.
Nas pinturas de Michel CENA7, formas geométricas e cromáticas, na tradição construtivista, convivem com fios, franjas, crochês e pequenos relevos têxteis ornamentados também por um olhar parceiro de sua mãe adotiva, Raquel Ramalho,
e que parecem escapar da superfície da tela. As composições evocam paisagens simbólicas, signos arcaicos, arquiteturas imaginárias. Há um delicado tensionamento entre rigor formal e gesto: a geometria encontra o artesanal, enquanto a pintura se deixa contaminar pela presença física do tecido e da linha.
Os trabalhos mostrados por Leila de Sarquis exibidos na mostra, o bordado se mistura com as linhas de delicados desenhos. As figuras frágeis e quase narrativas parecem surgir diretamente da matéria do tecido, como memórias que insistem em permanecer visíveis. Linhas soltas, costuras aparentes e formas inacabadas delineiam uma espécie de diário poético feito de fios, cicatrizes e pequenas fabulações.
Entre essas criações, o fio deixa de ser apenas material para tornar-se pensamento, memória e gesto de permanência. Tramando superfícies, tessituras de imagens e afetos, as obras parecem buscar maneiras de costurar o tempo — não para repará-lo completamente, mas para criar ligações possíveis entre fragmentos: entre o passado e o presente, entre o corpo e a lembrança, entre aquilo que se desfaz na memória e aquilo que ainda insiste em permanecer.
Lenora de Barros
