Belony Alma Ferreira (Santo Antônio da Patrulha, RS, 1935) alcançara os 53 anos quando ingressou no Atelier Livre da Prefeitura Municipal de Porto Alegre para fazer um curso de “Arte para a Terceira Idade”. Não tinha qualquer formação, tampouco vivência com o campo da arte. Naquele momento, como lembra, só contava com a “experiência de ver nuvem”. Ex-agricultora, nascida e crescida em meio ao cultivo de cana-de-açúcar, ela encontrou as artes visuais na maturidade, dando à sua velha companheira, a terra, o protagonismo de seu trabalho.
Militante política, Belony participou, em 1985, da histórica ocupação da Fazenda Annoni, no município de Sarandi (RS), marco de fundação do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). Seis anos depois, retornando ao local, deparou-se com o barro a impregnar as peles e as roupas dos agricultores, que, instalados provisoriamente, buscavam o assentamento. Essa experiência sensível e indelével mudou sua vida para sempre.
[...] Quando cheguei, tinha chovido. No meio do mato, havia uma sanga e umas mulheres estavam lavando roupa. Eu fui até elas e, na volta, elas foram caminhando na minha frente, por uma trilha bem estreita. E elas pisavam naquela terra ensopada, atolando as botas, algumas perdendo os chinelos, que ficavam presos à terra. Era um barro vermelho, muito vermelho, puro pigmento, que parecia sangue. Eu fiquei olhando ‘praquilo’, muito impressionada com aquela argila pesada, forte, que grudava nelas. E pensei: “Que loucura, isso... O que faz com que essa gente tenha tanta garra, tanta disposição para resistir, para lutar? Só pode ser a força que vem dessa terra”.
Sem saber direito com qual propósito, coletou um saco de argila. De volta a Porto Alegre, em seu ateliê, pensou em modelar alguma forma, tentar uma cerâmica, mas logo desistiu. Começou, então, a usá-la como tinta: “Passei um pouquinho num papel branco e... Nossa Senhora!!! Aquilo foi de uma vibração incrível!!!”. Comovida, pôs-se a explorar a cor, a plasticidade e a consistência daquela inusitada matéria-prima, ao mesmo tempo em que compartilhava seus experimentos e reflexões com os professores que a orientavam.
Abstratas, com gestos largos e formas sugerindo tensões e transbordamentos, as primeiras pinturas com terra, datadas do início dos anos 1990, evidenciam o impacto da vivência em Sarandi. Havia, inegavelmente, o conflito agrário e o eixo do trabalho e da vida comunal como fundo social e político, mas havia algo irrompendo com muito mais força: uma nova percepção sobre essa matéria, em sua tangibilidade e simbolismo.
Durante sua infância e juventude, Belony andou com os pés descalços; maculou a roupa com o solo marrom e vistoso; lavrou, plantou, zelou, colheu e viveu da terra, vista como subsistência, nada mais. E então, de súbito, começou a ter outra compreensão, nem sempre nítida, mas que se manifestava em sua produção plástica.
Em uma das obras, concebida como um tríptico, ela quis sugerir um “grande olho” espargindo energia e luz. Inseriu terras dissolvidas em água no interior de bexigas de borracha e, estando bem cheias, soltou-as do alto, sobre as telas jacentes no chão, provocando o rompimento dos invólucros. Lidando com uma casualidade controlada, Belony buscava formas que remetessem à propagação energética em todas as direções. Só muitos anos depois, observando o mesmo tríptico, porém em sentido inverso, ela percebeu que aquela conformação estava mais próxima de uma vulva e, nesse sentido, muito mais potente, pois uma vulva traz à luz, traz à Terra, liberta e expande.
A relação da terra “substância” com a “mãe” Terra despontou, encontrando nos suportes circulares a evocação ao planeta e também ao princípio feminino. Ao mesmo tempo, no amálgama entre fazer-sentir-pensar, cada vez mais consciente da grandiosidade de sua matéria-prima, de um lado, e de sua pequenez, como habitante da Terra, de outro, a artista decidiu dar maior autonomia ao barro. Isso significou o abandono dos pincéis e a adoção de uma conduta mais contemplativa, percebendo no substrato vivo e pulsante seu valor de manifestação, como algo que nos alimenta – real e transcendentemente.
No ateliê compacto e modesto, em meio a potes com lama de diversas tonalidades de ocre, Belony derrama o barro liquefeito sobre as telas, acompanhando a secagem e observando a argila se contraindo ou dilatando, fazendo seu próprio caminho. Às vezes suaves, mas frequentemente dramáticos, os craquelados que resultam desse procedimento remetem à superfície gretada das áreas secas, como o sertão, e expressam, em sua perspectiva, o clamor de Gaia, em meio às emergências climáticas decorrentes da ação humana. De tão densos, alguns irrompem, libertando-se do suporte e expondo a tela com os vestígios do fragmento perdido, quase um palimpsesto.
Há certa desventura nisso, mitigada pela beleza do que fica, em seu peso, fragilidade e concretude: placas que se projetam, em diversos tamanhos, texturas, rasgos, relevos e curvaturas, entremeadas por veios finos e grossos, fluidos e abruptos, em vibrantes e admiráveis cores.
Ao mesmo tempo em que explora essa enrijecida crosta pictórica, a artista sente necessidade de fluidez. Em suportes maiores, geralmente retangulares, ela verte, com vagar e ponderação, soluções bastante diluídas de argila. No despojamento do gesto, traduzido em manchas e aguadas, ela dá corpo a pinturas de aspecto diáfano e vaporoso, assinaladas por muitas camadas, derramamentos e fusões. Introspectivas e silenciosas, essas telas têm um caráter especial para Belony, sugerindo o que está na esfera da energia: “Pra mim, é como se fosse uma transmutação da matéria, algo espiritual”.
Belony Ferreira se percebeu artista às portas da antigamente chamada “terceira idade”. Quando muitos pensariam em frear ou mesmo parar, ela acelerou. Se seu início, frequentando aulas experimentais no Atelier Livre de Porto Alegre, sugere curiosidade e abertura para o desconhecido, sua trajetória, perseguida com disciplina e entrega, atesta resiliência e coragem. Receptiva aos desafios, foi conversar com geólogos e engenheiros para identificar a riqueza plástica de distintos solos. Com auxílio de seus mestres, aprendeu a limpar, moer, peneirar e a fazer tinta, submergindo os torrões em água durante dias, a fim de alcançar a justa maleabilidade. Consciente e plena em todo processo, observando e sentindo o que fazia, assimilou os fluxos e tempos da terra. Incansável, Belony ainda protagonizou performances com artistas da cena, cobrindo seus corpos com lama e buscando conferir-lhes a mesma energia telúrica que vira em Sarandi. Lançou-se a papeis com mais de 20 metros, produzindo desenhos de um vigor e potência impressionantes. E não titubeou diante das dezenas de convites que recebeu, de escolas e ONGs, para ministrar oficinas a crianças e jovens das periferias da capital sulina. Sem medo de julgamentos, conectada e serena, abraçou uma vida plena.
Nesse percurso, foi a terra que lhe indicou a direção, a terra que lhe revelou a essência, a terra que lhe deu sustentação – a mesma terra que ela, como agricultora, lavrou e semeou e colheu. Sua obra, calcada em história e vivência únicas, no enleio de corpo e matéria, é um verdadeiro acontecimento, ativando blocos de sensações que abalam o ordinário, surpreendem e encantam.
Paula Ramos
Curadora
