ALIMENTAR OS ESPÍRITOS DO CHÃO
Mayra Carvalho, Laryssa Machada, Kuenan Mayu, Sheyla Ayo, corcione
Exposição coletiva
Curadoria Lucas Dilacerda / Assistência curatorial Wes Viana
Feitiço para um futuro fértil
Cada obra desta exposição é um alimento. Elas não foram feitas para a contemplação dos humanos, elas foram feitas para alimentar os espíritos do chão. Portanto, esta exposição é um banquete, é uma oferenda às almas imortais. Os espíritos estão ao nosso redor, eles são as forças invisíveis que regem a Natureza: eles são a força da terra, do fogo, da água e do ar. Eles são a força da transmutação, da fertilidade e da vitalidade.
Em um tempo marcado pela colonização da natureza, extrativismo dos recursos naturais, mudanças climáticas e crises ecológicas, esta exposição se configura como um feitiço que nutre e alimenta os espíritos protetores da Natureza. Para isso, a exposição “Alimentar os espíritos do chão” reúne cinco artistas, de diferentes poéticas, territórios e cosmologias que fazem da sua obra um alimento para as entidades guardiãs da vida.
Mayra Carvalho, com ascendência materna da etnia Iny Karajá, cresceu na periferia do Rio de Janeiro, na Baixada Fluminense. A sua família paterna era composta por pedreiros, serralheiros e mestre de obras. Desde criança, cresceu vendo casas sendo construídas. Terra, água, barro, tijolo, ferro e argamassa foram materiais que Mayra nutriu intimidade desde a infância e que, posteriormente, reaparecem em seu trabalho como matérias espirituais. As suas obras são traduções poéticas das mensagens dos fluxos da Natureza, são portais para outros mundos que se conectam a sua ancestralidade e revelam cosmovisões que cruzam o físico e o espiritual.
Kuenan Mayu, de etnia materna Tikuna, localizada no alto do Rio Simões, cresceu na convivência com mulheres indígenas que lhe ensinaram a técnica ancestral do tururi, que é um tecido feito de fibra natural transmutada da entrecasca de árvores amazônicas, para criar pinturas, máscaras e vestimentas sagradas. O tururi não é apenas uma técnica de transmutação da matéria, é também uma técnica de transmutação do espírito. A tela do tururi é um receptáculo para os espíritos, é uma forma de invocação das forças da Natureza. A jiboia, por exemplo, é um signo de proteção. Na presença do tururi, a pessoa é coberta pelo espírito da proteção. Misturando pigmentos naturais de jenipapo e urucum, Kuenan faz, em suas telas de tururi, feitiços de um futuro possível para a humanidade em crise.
Laryssa Machada constrói imagens que contestam as narrativas “oficiais” sobre o Brasil e que contam outras histórias para corpos racializados e dissidentes de gênero e sexualidade. O caráter performático de suas imagens são rituais de invocação de entidades que habitavam este território antes da invasão colonial brasileira. Diante do trauma da colonização, as palavras não dão conta de descrever os segredos e os mistérios presos no inconsciente. Por isso, a artista utiliza a fotografia como uma forma de libertar os espíritos que surgem em suas imagens como mensageiros que anunciam outras formas de viver. As roupas, suportes e instalações feitas de saco de ráfia são tecnologias de invocação que possibilitam a manifestação de entidades sagradas e espirituais. Além disso, os sacos de ráfia desconstruídos discutem os processos de metropolização das cidades, na qual a fertilidade é forçada a atravessar centenas de quilômetros, embalagens, fluxos de trabalho e rotas de descarte para sustentar um corpo urbano que se afastou do chão.
Sheyla Ayo convoca memórias soterradas, ativa linhagens interrompidas pela diáspora africana e reinscreve o corpo negro como território sagrado de passagem entre o visível e o invisível. “Ayo” é uma palavra iorubá que carrega alegria, fluidez e vitalidade, opera aqui como força vital, como um sopro que atravessa linhas, fios e matérias naturais para tecer uma arqueologia familiar íntima e coletiva. Em suas obras, a linha é elemento estruturante. Suas linhas pretas, ora contínuas, ora quebradas, desenham trajetórias de vida, mapas, rotas ancestrais marcadas por deslocamentos, retirâncias e retomadas, onde o abstrato e o figurativo se misturam de forma intuitiva, como quem escuta a terra antes de desenhá-la. Entre pintura, tecido e palha de buriti, a artista materializa a filosofia iorubá e lança um feitiço de equilíbrio e suavidade para o mundo.
corcione busca se re-membrar à matéria originária. Em suas obras, fabula uma geologia ficcional pós-humana, articulando o termo científico que especula o surgimento da vida na Terra (a hipótese de que meteoros trouxeram material genético primordial) com uma imaginação de depois do colapso: no cenário pós-apocalíptico, já somos nós esse fóssil, embriões encostados à terra, vida e morte indissociáveis. Entre vasos e vazios, cavidades e órgãos, sua obra investiga o primal como estado anterior à forma estabilizada, onde o corpo encontra a Terra por contato, sopro e vibração. O som emerge como experiência vibracional que devolve o humano à Natureza, instaurando uma intimidade tátil com a matéria. Ao recusar o excesso de esmalte e preservar a superfície crua da argila, corcione afirma a cerâmica como carne da Terra.
Nesta exposição, as obras são oferecidas ao metabolismo invisível do mundo. Cada matéria transmutada, fertilizada ou decomposta (pelo fogo, pela água, pelo ar, pela terra e pelo tempo) opera como um alimento espiritual que nutre as energias invisíveis que sustentam a vida. Entre saberes instalativos, práticas de transmutação, ritos espirituais e alianças elementares com a matéria, a exposição se faz como uma semente para fertilizar futuros possíveis.
Lucas Dilacerda
Curadoria, AICA - International Association of Art Critics