A Bienal de Veneza acabou, mas suas estrelas podem ser encontradas em Miami — The Art Newspaper

Osman Can Yerebakan, Dezembro 5, 2024

A 60ª Bienal de Veneza terminou em 24 de novembro, mas sua influência ainda é sentida pelos visitantes da Art Basel Miami Beach esta semana. Diversos estandes da feira apresentam artistas que participaram da exposição central de Adriano Pedrosa, "Estrangeiros em Toda Parte", ou que expuseram em pavilhões nacionais e mostras satélites em Veneza.

 

O movimento indígena brasileiro MAHKU apresenta novas pinturas no setor Positions, com a galeria Carmo Johnson Projects, após uma instalação de fachada no edifício Giardini inspirada nos cantos da cultura Huni Kuin. A pintora nipo-brasileira Tomie Ohtake (1913-2015), cuja abstração ondulada em tons de azul de 1978 fez parte da exibição em estilo salão nos Giardini, está representada no estande da galeria Nara Roesler com uma pintura rosada de 2004. Três vibrantes pinturas de paisagens urbanas em técnica mista da artista filipina-americana Pacita Abad (1946-2004), dos anos 1990, foram destaque no Arsenale; em Miami, a galeria Tina Kim apresenta uma composição onírica de Abad, rica em glitter, criada em 1986.

 

Kapwani Kiwanga, que representou o Canadá em Veneza com uma instalação de sete milhões de miçangas coloridas, exibe pinturas em cerâmica em técnica mista no estande da Goodman Gallery. Já o pintor e escultor norte-americano Jim Dine, que apresentou obras em grande escala em um palácio do século XIV como parte da programação colateral da Bienal, está presente na feira principal com a escultura em bronze Three Graces (2008), no estande da Templon. A artista Acaye Kerunen, que estreou no Pavilhão de Uganda em Veneza em 2022 e este ano o curou, exibe uma nova obra de argila combinada a tecidos tingidos e trançados no estande da Pace Gallery.

 

Segundo Vincenzo de Bellis, diretor global de feiras e plataformas expositivas da Art Basel, o "rápido ciclo de feedback" entre a Bienal de Veneza e a Art Basel Miami Beach reflete como os eventos se complementam. “Bienais operam retrospectivamente, enquanto feiras mostram as produções mais recentes dos artistas.”

 

No estande solo do MAHKU na seção Positions, o grupo apresenta suas pinturas mais recentes, inspiradas nos cantos Huni Meka e realizadas em cores vibrantes. “Não pintamos o que vemos fisicamente na floresta, mas o que enxergamos em nossas mentes e sentimos em nossos corpos”, explicou um membro do MAHKU ao The Art Newspaper. Eles esperam que as vendas na feira os ajudem a comprar terras na Amazônia e a concretizar o sonho de criar o Instituto da Floresta MAHKU, com uma programação que valorize seu conhecimento ancestral.

 

A Bienal de Veneza também trouxe renovada atenção ao trabalho de Pacita Abad. “Sua abordagem transcultural à arte a posicionou fora de contextos tradicionais, o que contribuiu para sua relativa obscuridade”, disse Tina Kim, acrescentando que a exposição póstuma tem despertado crescente interesse entre colecionadores do Sudeste Asiático.

 

Artistas sul-americanos também estão no centro das atenções. A forte participação de artistas da América do Sul na Bienal de Veneza repercute na edição de Miami Beach, onde 70% dos expositores no setor Positions vêm da América Latina. “A América do Sul sempre foi o núcleo da nossa feira de Miami”, destacou De Bellis, observando como a Bienal muitas vezes confere legitimidade de mercado a importantes artistas da região.

 

O caso de Tomie Ohtake reforça esse ponto. Sua inclusão na Bienal deste ano não apenas reafirmou o apelo atemporal de suas composições, mas também confirmou para colecionadores e estudiosos o valor contínuo de sua obra. “É uma validação de que estavam no caminho certo”, afirmou Daniel Roesler, sócio e diretor da Nara Roesler.

 

Uma presença de destaque em Veneza também pode trazer novas perspectivas para artistas consolidados. Jim Dine usou sua exibição colateral como uma oportunidade para demonstrar que não há hierarquia entre suas habilidades na escultura e na pintura, disse Anne-Claudie Coric, diretora executiva da Templon, que também notou um aumento na demanda por suas esculturas externas.

“Embora não tenhamos planejado sobrepor as programações, é evidente como instituições vêm liderando processos de descolonização e inclusão que eventualmente são absorvidos pelo mercado”, acrescentou De Bellis.