Eu-mulher
Uma gota de leite
me escorre entre os seios.
Uma mancha de sangue
me enfeita entre as pernas.
Meia palavra mordida
me foge da boca.
Vagos desejos insinuam esperanças.
Eu-mulher em rios vermelhos
inauguro a vida.
Em baixa voz
violento os tímpanos do mundo.
Antevejo.
Antecipo.
Antes-vivo
Antes – agora – o que há de vir.
Eu fêmea-matriz.
Eu força-motriz.
Eu-mulher
abrigo da semente
moto-contínuo
do mundo.
Conceição Evaristo
A arte está em constante transformação, mas uma certeza permanece: sua existência é intrinsecamente humana, seja pelas mãos, mentes ou ideias que um artista projeta no mundo. O humano, por sua vez, é inato ao feminino — afinal, todos nós já fomos parte do corpo de uma mulher. Assim, pode-se dizer que, tal como a vida, a essência do fazer artístico é feminina. A partir dessa reflexão a exposição Eu-mulher — que toma emprestado o título de um poema de Conceição Evaristo — apresenta trabalhos de seis artistas mulheres representadas pela galeria Carmo Johnson Projects e faz parte da Women Artists' Art Week World, uma iniciativa global de impacto social que apoia artistas femininas.
Kaya Agari (1986, Cuiabá) é uma artista da etnia Kurã-Bakairi, inverte papéis sociais pré-estabelecidos em sua produção, utilizando a arte contemporânea como suporte para o resgate cultural e a ampliação dos limites entre saberes comuns e subjetividades artísticas. Em suas obras, a artista constrói confabulações estéticas ao unir os grafismos corporais tradicionais de seu povo, que são tradicionalmente divididos entre masculinos e femininos. Além de sua atuação artística, Kaya é uma importante líder feminina em sua comunidade, promovendo diversas ações de capacitação criativa para mulheres de seu povo.
Kássia Borges (1962, Goiânia) apresenta diferentes perspectivas sobre os impactos que o corpo da mulher indígena exerce no mundo. Mulher da etnia Karajá, sua produção em cerâmica tem origem nos anos 1980 e está diretamente ligada à tradição de seu povo, para quem a cerâmica é uma atividade tradicionalmente feminina. Kássia integra esse conhecimento ancestral a discursos e práticas contemporâneas, criando peças que exploram, de forma estética, as relações entre os instintos femininos — animal e humano.
No campo da pintura, Kássia também integra o MAHKU (Movimento dos Artistas Huni Kuin), ao lado de outras duas artistas mulheres: Yaka Huni Kuin (1996, Jordão) e Rita Huni Kuin (1994, Jordão). O coletivo traduz em imagem os cantos e mitos do povo Huni Kuin. As pinturas realizadas pelas artistas frequentemente apresentam figuras femininas em diálogo com elementos tradicionais da cultura Huni Kuin. A atuação de Kássia, Yaka e Rita no MAHKU desafia as noções rígidas de gênero presentes em suas culturas, nas quais mulheres são historicamente proibidas de acessar certos costumes e práticas. Por meio de suas obras, elas ampliam a presença feminina na dinâmica artística e social Huni Kuin.
Naine Terena (1980, Cuiabá) é artista, pesquisadora, curadora e uma importante articuladora da arte indígena contemporânea. Pertencente à etnia Terena, ela carrega em sua trajetória a forte tradição do tear e do trabalho com fios — atividades tradicionalmente femininas dentro de sua cultura. Com o passar dos anos e os impactos da violência histórica, essa prática tornou-se cada vez mais rara, e hoje poucas mulheres Terena ainda dominam as técnicas tradicionais. A produção artística de Naine busca unir a preservação dessa herança cultural com uma reflexão crítica sobre os impactos do mundo contemporâneo. Suas obras reconfiguram a tradição: apresentam pontos inacabados, fios soltos e incorporam frases de reflexão social sobre a posição indígena no Brasil. Esses elementos são utilizados como mecanismos artísticos que potencializam os debates que a artista propõe em seu trabalho.
Nara Guichon (1955, Santa Maria) é artista, ativista ambiental há mais de 40 anos e desenvolve sua prática artística a partir de duas grandes paixões: a natureza e as técnicas têxteis. Seu processo criativo começa com a coleta das chamadas "redes-fantasma" — redes de pesca descartadas no oceano que ameaçam a vida marinha e o equilíbrio ecológico. Após a coleta, Nara lava e tinge essas redes utilizando folhas, ervas e outros materiais orgânicos que cultiva e cuida em sua própria casa-ateliê-floresta. A imagem da artista tingindo seu principal material evoca as figuras das mulheres alquimistas da Idade Média, perseguidas e silenciadas durante séculos. Ao criar esse arsenal de possibilidades de cor a artista parte para a aplicação do tricô, tear e tramar nas redes de pesca. Seu vasto conhecimento sobre pigmentos naturais se entrelaça de maneira única com o ativismo ambiental e a arte contemporânea, resultando em obras que materializam a fusão entre preservação da natureza, tradição e inovação artística.
Todas essas artistas evocam, em seus gestos e criações, as mulheres que as formaram: mães, avós, tias, irmãs, amigas e ancestrais que, de maneira direta ou indireta, tecem a trama invisível que sustenta seus pensamentos e ações. Cada obra carrega as marcas dessas presenças — vozes sussurradas ao longo do tempo, gestos transmitidos de geração em geração, saberes partilhados na intimidade dos vínculos femininos. Quando essas obras se reúnem em um mesmo espaço-tempo, as singularidades de cada trajetória se somam, criando uma potente rede de sentidos. Nesse encontro, as vozes se amplificam, se reconhecem e se fortalecem, formando uma constelação de memórias e futuros possíveis onde o feminino é não apenas lembrado, mas celebrado como força vital e criadora.
