Os caminhos de Bruno Novelli e do Movimento dos Artistas Huni Kuin (MAHKU) se cruzaram definitivamente em 2017. Na ocasião, organizamos a pintura da Secretaria de Educação e Cultura do município de Jordão, no Acre. Estivemos junto por cerca de um mês pintando, conversando e, sobretudo, aprendendo. Vislumbramos, ainda que parcialmente, a potência do coletivo, o tamanho e a importância do trabalho de Ibã ao tecer e construir o MAHKU.
O MAHKU pinta cantos, traduz e “coloca no sentido” os cantos huni meka, nas palavras de Ibã. Esses cantos, por sua vez, são caminhos e colocam os participantes dos rituais com nixi pae (ayahuasca) em relação com seres não diretamente visíveis. O MAHKU, portanto, pinta uma tecnologia de relação. As pinturas, por sua vez, operam como agentes conectores com o mundo não indígena. Por essa ponte de mão dupla passam diversas coisas e pessoas. Às vezes, alianças são criadas. É o caso que dá origem a esse projeto. Desde o ano de 2017, decidimos contribuir, cada um à sua maneira, com o processo de autonomia do coletivo. Como Ibã diz e defende: “Vende tela, compra terra”. Com a venda de uma tela em 2014, Ibã e o MAHKU compraram uma parte da floresta Amazônica, ainda totalmente preservada, na beira do rio Tarauacá, próximo do município de Jordão, Acre. Esse movimento autonomista de comprar terra opera expandindo o imaginário que se costuma ter sobre populações indígenas: o de que vivem tutelados em uma espécie de presente perpétuo situado no passado. Futuramente, o objetivo do coletivo para esse local é a construção do Centro MAHKU Independente (CMI), local de intercâmbio artístico e “pesquisas espirituais”, como diz Ibã. Com a venda dessas obras, eles buscarão dar continuidade a esse projeto.
Digo que cada um contribui à sua maneira pois Bruno é artista. Eu, não. Bruno pinta e os interesses dele, a pluriversidade visual que viaja por sua mente e corpo aproxima elementos tão díspares como São Paulo e Jordão. Floresta e megalópole. Arte medieval e grafismos indígenas. Pixo e arte renascentista. Ibã e RammEllzee. Sigmar Polke e Mestre Guarany. Alquimia, ayahuasca. Conexão.
A precisão de Bruno, aliada a uma multiplicidade de referências, cria uma espécie de colagem pintada. Animais reais e irreais, arquétipos e mitos, plantas e pedras, pôr do sol e eclipses, figuras icônicas e paisagens surreais. “Atenção, tudo é perigoso, tudo é divino, maravilhoso”, diria Gal Costa. A sobreposição de camadas de tintas, as marcas da mão e do gesto, porém, evidenciam que aquilo é obra humana. O real de Bruno talvez seja feito de cores e imagens que, somados, ultrapassam os limites físicos e se tornam metafísica: uma metafísica individual. Será que isso é possível?
Agora, os caminhos de Bruno Novelli e do MAHKU voltam a convergir. Não mais na Floresta Amazônica, mas em São Paulo. Apresentados por Carmo Johnson Projects, Bruno Novelli e o coletivo MAHKU mostram obras inéditas para o SP- Arte Viewing Room e, concomitantemente, na exposição presencial, com curadoria de Daniel Dinato, Perigoso, divino, maravilhoso a ser sediada na casa de arquitetura brutalista projetada por Joaquim Guedes no Pacaembu.
— Daniel Dinato
